‘Amor, Sublime Amor’ não é o grande musical do cinema da atualidade

Por Sérgio Alpendre

Apesar de Spielberg e seu roteirista Tony Kushner fazerem questão de dizer que ficaram mais próximos do libreto original de Laurents, é inevitável fazer comparações entre este novo filme e a célebre versão cinematográfica de 1961, vencedora de dez troféus no Oscar, incluindo o de melhor filme. Muitas opções de câmera são parecidas, assim como o uso das locações. Até mesmo os créditos finais reproduzem, com maior pobreza visual, os do filme original.


A trama também não muda, ou muda muito pouco, e a de “Amor, Sublime Amor”, tanto nas diversas montagens teatrais quanto nos filmes, é inspirada em “Romeu e Julieta”. Num bairro pobre de Nova York, duas gangues lutam pelo domínio do território, os Jets, que se consideram mais americanos, mesmo que sejam descendentes de europeus, por terem nascido ali, e os Sharks, porto-riquenhos que procuram nos Estados Unidos uma melhor condição de vida.


Em um baile, Maria, papel de Rachel Zegler, irmã de Bernardo, vivido por David Alvarez, líder dos Sharks, se apaixona por Tony, papel de Ansel Elgort, melhor amigo de Riff, vivido por Mike Faist, líder dos Jets. Apesar dos avisos de Anita, papel de Ariana DeBose, mulher de Bernardo, e de Chino, vivido por Josh Andrés Rivera, que gosta de Maria, esta não se contém e planeja fugir com Tony para longe desse ambiente bélico.


No elenco, há um certo equilíbrio com a versão de 1961. Embora Zegler esteja bem, Natalie Wood é insuperável como Maria. Elgort e Richard Beymer são atores limitados, mas não comprometem no papel de Tony. Por outro lado, David Alvarez é bem mais convincente como Bernardo que George Chakiris, e Ariana DeBose faz a personagem Anita crescer ainda mais, mesmo que Rita Moreno a tenha interpretado magnificamente em 1961. Moreno, aliás, está na nova versão como Valentina, a viúva de Doc, proprietária do armazém onde os Jets costumam se encontrar. Eis uma mudança considerável da versão atual.


Robert Wise fez um filme muito mais estiloso, mas Spielberg compensa com uma produção mais espalhafatosa, som Dolby da melhor qualidade, movimentos de câmera grandiosos e maior intensidade nas atuações. A cena em que Maria e Tony se encontram pela primeira vez, no baile, é um belo exemplo disso. No lugar da invenção visual de Wise, Spielberg capricha na dança dos olhares, usando a montagem para alternar as distâncias entre eles com inteligência.


A versão atual também reforça o preconceito de parte dos personagens contra imigrantes, refletindo o recrudescimento da atitude supremacista branca nos Estados Unidos. Até mesmo a polícia e o inspetor estão mais evidentemente do lado dos Jets, apesar da máscara da lei e da ordem. “Estamos em desvantagem, eles chegam aos montes e fazem muitos filhos”, o inspetor chega a dizer aos Jets. A citação não é literal, mas o entendimento é esse mesmo, uma crítica óbvia àqueles que aprovam a ideia do muro de Trump na fronteira com o México.


Muito se falou dessa primeira incursão de Spielberg pelo musical. Mas um diretor habituado a transitar por diversos gêneros, da aventura à fantasia juvenil, do drama histórico ao cinema de espionagem, da comédia ao horror, do filme de guerra à ficção científica, sabe que, com um mínimo de aplicação, pode se exercitar no gênero que quiser.

Se sua versão de “Amor, Sublime Amor” não é o grande musical que o cinema contemporâneo deve há alguns anos, ao menos é um filme que faz jus à reavaliação positiva que a crítica francesa, com a revista “Cahiers du Cinéma” na dianteira, tem feito de sua obra nos últimos 15 ou 20 anos.
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AMOR, SUBLIME AMOR
Quando: estreia nesta quinta (9)
Onde: nos cinemas
Elenco: Rachel Zegler, Ansel Elgort, Ariana DeBose
Produção: EUA, 2021
Direção: Steven Spielberg
Avaliação: Bom

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