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Com 45 anos de tradição, Panificadora Portuguesa encerra atividades

O estabelecimento fundado por casal angolano, em 1978, na 708/9 Norte, fez parte da


O estabelecimento fundado por casal angolano, em 1978, na 708/9 Norte, fez parte da história de Brasília e abaixou as portas neste domingo

O ano de 2024 vai começar com gosto de saudade para o brasiliense. A notícia de que uma das mais antigas padarias do Distrito Federal fecharia as portas neste domingo (31/12) surpreendeu os últimos clientes que entraram na Panificadora Portuguesa, na 708/709 Norte, sem saber até então, que comprariam os últimos pães portugueses que alimentaram várias gerações da capital federal.

“Como assim? Fechar definitivamente? Por quê?”, questionou, atônita, a aposentada Maria do Rosário Caixeta ao caixa Aldenir Lima Alves. Sem obter uma resposta definitiva do funcionário, que estava igualmente surpreso pela notícia, a mulher virava o rosto para todos os lados em busca de alguma explicação. Não conseguiu. Saiu cabisbaixa da padaria que frequentou por quase 30 anos. “Meus filhos foram criados comendo os pães desse lugar e sempre dizem que eles têm ‘gosto de infância’. A tradição foi adiante e os meus netos adoram os pães daqui. Eles vão ficar muito tristes também”, lamenta.

Aldenir é o funcionário mais antigo da panificadora. Com 36 anos na casa, ele tentava manter o sorriso e a simpatia enquanto atendia os derradeiros clientes. Mas era apenas uma estratégia quase desesperada para esconder a tristeza de absorver a ideia de que, depois de tanto tempo, aquele seria o seu último dia no local onde construiu toda a sua carreira profissional.

“Não caiu a ficha ainda. Entrei aqui em setembro de 1987 e quem me contratou foi a própria dona Arminda. Trabalhei em todas as funções aqui dentro. Não sei como vou acordar amanhã sabendo que não poderei mais vir trabalhar nesse lugar que é tão importante para mim”, conta, com os olhos marejados e sorrisos para disfarçar a tensão e a ansiedade.

Apesar do nome, a Panificadora Portuguesa foi inaugurada pelo casal Manoel Ernesto Pontes e Arminda Ângela Antônio Pontes, naturais de Luanda, capital de Angola, na África, e ex-colônia portuguesa. De acordo com a neta e administradora da padaria, Ana Cristal Pontes, o casal teve três filhos e decidiu vir ao Brasil para fugir da sangrenta guerra civil que durou cerca de três décadas em Angola.

“Eles ouviram falar de Brasília lá em Angola e chegaram aqui em 1972 e fundaram a panificadora seis anos depois”, relata Ana Cristal. “Minha avó era filha de portugueses e cabeleireira de formação em Angola. Foi no salão onde aprendeu várias receitas com as clientes. Quando chegou no Brasil, fez algumas adaptações e criou a receita da família”, acrescenta.

Foram casados por 75 anos e faleceram com uma diferença de apenas um mês e meio, em 2015. Ele morreu em outubro, aos 97 anos, e ela, com 88, no dia 31 de dezembro, no mesmo dia que, oito anos depois, o seu maior legado fecha as portas. “É uma data emblemática. Logo depois de fechar as portas hoje eu vou ao cemitério visitar o túmulo dos meus avós e dar a notícia”, revela Ana, visivelmente emocionada.

Cliente da padaria desde a década de 70, o advogado João Adilberto Xavier também soube do fechamento da padaria e se disse consternado pela notícia. Na hora pediu para falar com a proprietária pessoalmente e fazer um apelo. Com duas sacolas cheias de pães e croissants, João interrompeu educadamente a entrevista e pediu à Ana que repensasse a decisão. “Conheci muito bem os seus avós. Não deixe o legado da família morrer junto com eles. A padaria é um ícone de Brasília e vai deixar uma lacuna muito grande na sociedade. Não teria outra alternativa? Estou saindo daqui hoje muito abalado”.


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Há quatro anos à frente da administração da Panificadora Portuguesa, a jovem empresária de 27 anos reconhece a importância da tradição do local, mas justifica o encerramento das atividades devido à alguma dificuldade econômica e pela necessidade imediata de altos investimentos em reforma da padaria. Ela superou as dificuldades da pandemia e recuperou, pelo menos por um tempo, a saúde financeira do negócio.

“Tentamos de todas as formas manter a tradição e o legado dos meus avós. Até investi na elaboração de um projeto de remodelação, pois as instalações da padaria são muito antigas e seria necessário reformar a parte estrutural e a estética dela. Mas a família tomou a decisão conjunta de encerrar esse ciclo que foi iniciado pela minha avó, que era quem realmente tocava o negócio. Vivemos uma história linda. Ela e o meu avô, e tudo o que eles passaram para os funcionários. Afinal, a padaria é mais sobre pessoas do que qualquer outra coisa. E todos vão lembrar desse tempo valorizando o que viveram e não sentindo raiva”, explica.

À beira do forno, no subsolo da Panificadora Portuguesa, visivelmente emocionado, o padeiro Wilson aguarda a última fornada dos pães portugueses tão cobiçados pelos brasilienses e divide a mesma opinião de Ana Cristal. Foram 32 anos com a mão na massa literalmente e assando as deliciosas receitas da matriarca da família Pontes, a dona Arminda. O típico pastel de nata português e as ensaimadas, uma rosca de chocolate, creme e canela, também eram os preferidos dos clientes. “Foi uma vida aqui dentro. Aprendi tudo com a dona Arminda. Sou muito grato a ela e à neta dela que sempre nos trataram com respeito e consideração”, diz, Wilson.

Ao longo de 32 anos trabalhando na Panificadora Portuguesa, Lucilene Moreira acabou estreitando os laços e se tornou amiga da família. A ponto de ganhar o apelido carinhoso de “Loura”. Dona Arminda se tornou madrinha do primeiro filho dela e, anos mais tarde, quando a matriarca quebrou a perna, Loura acabou ajudando também como cuidadora. “Eu os considerava como família. Vendo a padaria fechando me parte o coração, mas é um recomeço. E saio com a sensação de dever cumprido. Sou muita grata”, conta com a voz embargada.

Assim como todos os funcionários, Ana Cristal também não sabe o que vai fazer a partir de 2024. Chef de cozinha e mãe de um menino de 7 anos, ela pretende abrir outro negócio relacionado à alimentação. “Preciso sustentar o meu filho e me planejar porque ainda não sei como vou fazer para me manter. Mas é preciso encerrar esse ciclo e seguir em frente. Afinal, ter uma vida plena é fluir nos altos e baixos”.


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Se, no Cristianismo, o pão simboliza o corpo de Jesus e o sacramento da partilha, gesto que Cristo fez ao dividir o pão na Última Ceia, na Panificadora Portuguesa, o pão foi multiplicado diariamente e representou, por 45 anos, não apenas o alimento para o corpo, mas o sacrifício de toda a equipe em benefício de todos, o compartilhamento de experiências entre a família e os funcionários, a prosperidade entre os clientes e, por último, anuncia a renovação de um novo ano repleto de esperança.

“Temos nossos sentimentos e precisamos viver todos eles. Mas você escolhe qual lado você quer olhar. Você vai ficar triste porque uma história de 45 anos acabou ou vai ficar feliz porque essa história existiu?”, conclui, pouco antes de seguir em direção à porta da Panificadora Portuguesa para fechá-la pela última vez e, assim, encerrar a deliciosa dinastia do casal Arminda & Ernesto Pontes que, por quase meio século, alimentou com o “pão de cada dia” os moradores da capital federal.



Fonte: JBR

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