Você trocaria algo caro e que faz mal por uma vida mais saudável e com mais tempo de qualidade ao lado de sua filha? Há oito meses, essa foi a decisão que a diarista Keila Maria de Abreu,de 40 anos, resolveu tomar. Com o apoio da Unidade Básica de Saúde (UBS) 2 de Taguatinga, encarou de frente o desafio de parar de fumar e hoje já colhe os benefícios da decisão. “Um dia de trabalho meu era só para pagar o cigarro. Depois que parei, consegui comprar um guarda-roupa. E toda semana saímos para comer alguma coisa gostosa”, comemora.
A alegria contagiou a família: “Confesso que minha mãe ficou bem nervosa ao parar com o cigarro, mas hoje está mais tranquila, mais do que quando fumava todos os dias”, elogia a filha Ana Luiza de Abreu, de 15 anos. A adolescente também celebra o bem-estar familiar: “A casa não está mais com cheiro ruim. Eu também estou respirando melhor”.
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A quase 50 quilômetros dali, na UBS 3 de São Sebastião, outra mulher tem a mesma motivação para parar de fumar. A publicitária Hélida Wonstein, 40, não quer servir de mau exemplo para os filhos. Por esse motivo, neste mês, passou a frequentar o grupo de tabagismo da unidade de saúde. “Já consegui tirar aqueles cigarros que eram habituais no dia a dia, como aqueles depois de tomar um café”, conta. Ela ainda não marcou o “dia D” para afastar o vício totalmente, mas está otimista: “Eu já parei uma vez. Vou conseguir de novo”, promete.
Abordagem multidisciplinar
Histórias semelhantes são ouvidas diariamente nos 77 grupos para tratamento contra tabagismo em unidades da Secretaria de Saúde (SES-DF). Equipes multiprofissionais oferecem apoio necessário com diversas abordagens, que vão desde o uso de medicamentos a dinâmicas coletivas.
“Temos tratamento de reposição de nicotina e de controle da ansiedade, além de outras questões, mas o resultado é alcançado por meio de frentes distintas, com informação e atenção em áreas como psicologia e serviço social. É integral”, explica a farmacêutica Cristiane Falcão, da UBS 2 de Taguatinga.
“Fazemos dinâmicas como perguntar o que o cigarro significa para cada um: as pessoas definem como amigo, como companhia, como relaxante. Depois perguntamos o que o cigarro já tirou: dinheiro, saúde, tempo com filho. Também informamos muito sobre a composição desses produtos, e as pessoas se surpreendem”, acrescenta a farmacêutica Fernanda França, da UBS 3 de São Sebastião. Outro método de sucesso na unidade é a “cápsula do tempo”, no qual pacientes registram seus anseios antes do tratamento e, 30 dias depois, podem ter orgulho da própria mudança.
Prazo
O caminho que leva a uma vida longe do vício não é linear e o tempo não se apresenta de forma igual para todo mundo. Há quem decida largar o cigarro com apenas um encontro. Mas há, também, pacientes que tentam várias vezes antes de conseguir completamente. “Com um apoio estruturado, a taxa de sucesso, no geral, varia entre 15% e 85%. Nosso objetivo é atingir pelo menos 30%”, explica o coordenador do Programa de Controle do Tabagismo no DF, Saulo Viana.
Desafio para todas as idades
Os grupos de tabagismo caracterizam-se pela diversidade, com pessoas de classes sociais, profissões e faixas etárias distintas. Aos 69 anos, o aposentado Antônio Eustáquio Russo diz que sempre é hora de largar o vício. “Nunca é tarde para nada. Se a pessoa quer ter uma qualidade de vida melhor, precisa buscar uma UBS que presta esse serviço e participar”, aconselha.
Ao descobrir o início de um enfisema pulmonar, Antônio decidiu procurar a UBS 2 de Taguatinga. “Comecei a fumar aos 13 anos. Foram 55 anos de cigarro”, conta. Ele disse ter dispensado apoio de fármacos durante o tratamento, preferindo a experiência de conversar com os profissionais e com outros pacientes. “A minha decisão de parar tem que ser definitiva”, opina.
É a trilha que o estudante Mateus Mota quer adotar. Aos 20 anos, ele diz que a futura carreira na área de educação física não condiz com o tabagismo: “Como eu posso melhorar a vida, a saúde e o físico de alguém se não faço isso por mim?”, reflete.
O vício começou aos 17 anos, com a versão eletrônica, o vape. Em seguida, vieram os cigarros tradicionais. Mateus já participou do primeiro encontro, na UBS 3 de São Sebastião. A meta é parar de fumar e comemorar os 21 anos sem cigarro. “O grupo ajuda porque você abre um pouco sua percepção e começa a ver a sua doença, o seu vício. Hoje, sinto vergonha de fumar”, relata.
*Com informações da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF)









