Em uma unidade hospitalar terciária, a precisão laboratorial não é apenas um suporte, mas o alicerce para as decisões clínicas e estratégia terapêutica que situa o paciente no centro do cuidado. No Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB), uma unidade da Secretaria de Saúde (SES-DF), a estruturação da área de apoio diagnóstico constitui uma operação robusta que conta com o Laboratório de Análises Clínicas (LAC), unidade de bioimagem, laboratório de provas funcionais e serviço de anatomia patológica. Com uma produção anual que ultrapassa a marca de 560 mil exames, o LAC do hospital consolida-se como um centro estratégico para o manejo de condições complexas e raras de saúde de pacientes pediátricos, unindo assistência e pesquisa científica.
Visando a otimizar os custos e reduzir os riscos logísticos, o HCB possui uma estrutura diagnóstica laboratorial que compõe o complexo da unidade de saúde. Além disso, os fluxos e processos do LAC estão organizados de modo a favorecer menor tempo possível entre a coleta da amostra e a decisão clínica. Quando se trata da especificidade das análises clínicas, o fator tempo pode definir o futuro do paciente, principalmente quando se trata de crianças e adolescentes acometidos por condições oncológicas, condições renais agudas ou crônicas, doenças cardiovasculares ou hepáticas, e condições genéticas raras.
De acordo com Joana Paula Pereira da Silva, gerente de Apoio ao Diagnóstico Terapêutico da instituição, contar com fluxos eficientes e sistemas integrados reduz a dependência de serviços externos para os exames laboratoriais, que são cruciais para o apoio à decisão médica, especialmente em crianças que enfrentam quadros severos e instabilidade clínica. A gestora destaca que, no hospital, o LAC atua como um “hub centralizado”, sendo ponto de convergência que conecta, integra e gerencia exames de análises clínicas em um único local. O processamento e análise de exames laboratoriais é alimentando diretamente no prontuário eletrônico do paciente, em tempo real. Dessa maneira, a equipe multidisciplinar pode agir com base em dados sempre, 24 horas por dia, em todos os dias da semana.
Aproveitamento do tempo
“Com coleta, análise e liberação de resultados in loco para a maioria dos exames, evitamos deslocamentos desnecessários que poderiam estressar o paciente pediátrico. Para os exames de baixa demanda e alto custo, após análise de viabilidade, decidiu-se pela realização por laboratórios externos, porém os resultados são imediatamente integrados ao prontuário eletrônico do paciente. Utilizamos no Laboratório de Análises Clínicas sistemas informatizados conectados ao prontuário, permitindo que a equipe multidisciplinar acesse dados em tempo real”, explica a gerente.
Para Joana Paula, esse suporte maximiza as chances de melhores prognósticos e de melhor qualidade de vida, permitindo tratamentos individualizados, em tempo oportuno, otimizando também os custos de saúde. “Desde a admissão até a alta, com suporte 24/7 para casos críticos, prezamos por eficiência e conforto para pacientes e famílias que dependem do hospital a longo prazo, e, por isso, o laboratório está perfeitamente encaixado ao fluxo hospitalar para que a criança tenha todo o suporte em um único local”, afirma.
A especialização do laboratório se manifesta diretamente no suporte às linhas de cuidado mais sensíveis da unidade de saúde. Na oncologia, o monitoramento de marcadores tumorais e da toxicidade relacionada ao tratamento com quimioterapia é rigoroso; na nefrologia e cardiologia, o controle de eletrólitos e biomarcadores ocorre em tempo real. Esta capacidade técnica permite o ajuste preciso de dosagens de medicamentos de controle, como imunossupressores, minimizando riscos de deterioração dos rins ou supressão medular por meio de análise individualizada dos efeitos medicamentosos. Conforme a Gerência de Apoio ao Diagnóstico Terapêutico (GADT), esse acompanhamento previne intercorrências graves, detectando desvios nos exames de sangue antes mesmo que os primeiros sintomas clínicos se manifestem no paciente.
Coleta
Para além do rigor científico, o modelo de gestão do LAC incorpora a humanização como um requisito técnico. A coleta de material biológico em crianças exige protocolos diferenciados que vão desde a utilização de agulhas de menor calibre até a capacidade de definir as regras e ajustar as máquinas para analisar gotinhas de sangue de bebês (parametrização de microamostras em recém-nascidos).
“Reforçamos o compromisso do HCB com a vida e o futuro dessas crianças por meio de protocolos personalizados que priorizam não só a sobrevida, mas o bem-estar integral – físico, emocional e familiar”
Joana Paula Pereira da Silva, gerente de Apoio ao Diagnóstico Terapêutico do HCB
A equipe é treinada para lidar com o medo e a recusa infantil por meio de técnicas de engajamento e educação em saúde a partir do uso de brinquedos terapêuticos, garantindo que o procedimento seja o menos traumático possível. “Reforçamos o compromisso do HCB com a vida e o futuro dessas crianças por meio de protocolos personalizados que priorizam não só a sobrevida, mas o bem-estar integral – físico, emocional e familiar. Assim, ajudamos a transformar desafios crônicos em rotinas gerenciáveis, devolvendo autonomia e esperança às famílias”, afirma Joana Paula.
Heitor Cristiano Silvano, de 7 anos, entra na sala de coleta do Hospital da Criança de Brasília e já anuncia que quer a “borboletinha”. O menino se refere a um cateter que lembra a forma do inseto. “É que ele já ficou internado aqui e se acostumou a tirar sangue com a ‘borboletinha’. Quando ele chegou aqui, ele tirava sangue dia sim, dia não, mas como ele veio de outros hospitais, ele fazia isso todo dia. Então, ele preferia essa, que ele fala que não dói”, diz a mãe do menino, Rafaela de Oliveira.
Pacientes
Em tratamento no hospital para lidar com a hipospadia, uma malformação congênita relativamente comum em meninos, Heitor já está habituado à rotina de exames de sangue. Ele passou por cirurgia no HCB e segue em acompanhamento com as especialidades hepatologia, genética e urologia. Rafaela de Oliveira diz que faz questão de explicar ao menino todo o processo de cuidado assistencial pelo qual ele passa e explica que, atualmente, ela também lida com esses momentos com mais naturalidade. “Ele perguntava e falava que era ‘tomar sangue’; aí eu falava: ‘não, mamãe tira sangue para ver se seus exames estão normais’. Porque, até então, ele faz um tratamento com uso contínuo de remédios. Então, por isso, que tem que ficar repetindo esses exames. Antes, era trabalhoso para mim, também. Já sabia que ia tirar sangue e ia ser aquela luta. Mas agora está tranquilo”, diz a usuária.
Tecnologia e segurança em prol do cuidado e da cura
A eficiência laboratorial do HCB é sustentada por uma infraestrutura tecnológica que opera em conjunto com protocolos rigorosos de controle de qualidade mundialmente reconhecidos, referendados, também, pela Cultura de Acreditação Hospitalar que confere à unidade de saúde o selo de Excelência ONA 3, até então inédito em unidades hospitalares pediátricas públicas em toda região Centro-Oeste. A alta conformidade (95%) nos requisitos da Organização Nacional de Acreditação (ONA) reflete a maturidade da gestão do HCB e seu compromisso com a centralidade do cuidado com o paciente e sua família.
Manuel de Paiva, supervisor do LAC do HCB, ressalta que o compromisso com a celeridade é um dos pilares da instituição: o hospital assegura que 98% dos exames de urgência e emergência sejam entregues em até duas horas, mantendo um índice de precisão diagnóstica também de 98%. Esse desempenho é validado por controles de qualidade rigorosos que seguem legislação própria e controles de qualidade externos, nos quais os processos de testagem cega garantem a fidedignidade dos dados que orientam as condutas terapêuticas.
O modelo de cuidado do HCB estende-se para além da bancada, integrando os laboratórios de análises clínicas, anatomia patológica e pesquisa translacional em um fluxo contínuo de conhecimento e aliança com o tratamento clínico. Essa abordagem permite que o hospital gerencie com precisão todas as etapas do processo laboratorial, possibilitando o avanço e aprimoramento científico sobre condições de saúde complexas da infância.
Integração
A atenção é redobrada na fase pré-analítica — que compreende desde o cadastro do paciente, registro do pedido até a coleta e entrada da amostra biológica pelo LAC, estágio que concentra, aproximadamente, 70% dos erros laboratoriais no setor de saúde. Para mitigar esses riscos, a instituição investe em treinamentos constantes e no nivelamento tecnológico de sua equipe, composta por profissionais biomédicos, farmacêuticos e técnicos de laboratório.
Adimara Kely Souza, técnica de laboratório no HCB há sete anos, afirma que cada atendimento que presta traz consigo uma história diferente, de aprendizado e de troca. Para ela, a coleta de material biológico é um processo delicado tecnicamente, que exige comprometimento e delicadeza, porque é preciso lidar com a criança e com as famílias cujo protagonismo ela faz questão de fomentar, uma vez elas podem atuar como barreira de segurança.
“Muitas vezes, esse paciente vem coletar material no atendimento do ambulatório. Então, ele vem até nós direto da casa dele. E a gente vê que o paciente está mais ‘molinho’, pálido; a gente já coleta o material para o banco de sangue. Isso faz muita diferença no diagnóstico também. É uma responsabilidade que a gente carrega. A gente faz a diferença na vida desses pacientes”, afirma.
A integração entre o laboratório e o corpo clínico é outro aspecto importante da gestão hospitalar que também humaniza os dados técnicos e de rastreamento. A partir de discussões de casos específicos e da monitorização em tempo real de pacientes em estados críticos, como os de terapia intensiva e pós-transplante de medula óssea, o dado laboratorial torna-se uma ferramenta viva, e atuante, de cuidado.
*Com informações do HCB







