O Distrito Federal já produz cafés premiados e apresenta produtividade acima da média nacional. Mas uma questão ainda define o futuro da atividade na região: esses resultados são pontuais ou indicam o surgimento de uma nova origem no mapa do café brasileiro? É a partir dessa pergunta que um estudo fomentado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), no valor de R$ 1 milhão, por meio do edital Agro Learning (2023), busca transformar potencial produtivo em evidência científica — investigando se o Cerrado brasiliense reúne condições para consolidar uma identidade própria no mercado cafeeiro.
Da produção emergente ao diagnóstico estruturado
Apesar de recente e ainda com área plantada reduzida, a cafeicultura do Distrito Federal já demonstra desempenho expressivo, com produtividade elevada e presença em concursos de qualidade. No entanto, esses indicadores, isoladamente, não são suficientes para caracterizar uma origem.
“Se o Distrito Federal já apresenta boa produtividade, cafés premiados e condições edafoclimáticas promissoras, por que ainda não conhecemos de forma sistemática a identidade desses cafés?”
Lívia de Lacerda, coordenadora do projeto
O projeto coordenado pela professora Lívia de Lacerda de Oliveira, da Universidade de Brasília (UnB), surge justamente para preencher essa lacuna: transformar percepções dispersas em um diagnóstico estruturado da produção local.
O apoio da FAPDF foi fundamental para viabilizar a complexidade do estudo, permitindo a integração entre instituições de pesquisa, assistência técnica e produtores. “Mais do que fomentar análises, o apoio da FAPDF permitiu conectar produtores, pesquisadores e instituições”, ressalta Lívia.
O projeto também contribui para o fortalecimento da infraestrutura científica da Universidade de Brasília e para a formação de recursos humanos qualificados, consolidando uma base técnica que pode sustentar o desenvolvimento da cafeicultura local no longo prazo.
A pesquisa reúne instituições como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater-DF), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), articulando dados de campo, laboratório e mercado para compreender a cafeicultura do DF em sua totalidade.
“Se o Distrito Federal já apresenta boa produtividade, cafés premiados e condições edafoclimáticas promissoras, por que ainda não conhecemos de forma sistemática a identidade desses cafés?”, questiona a coordenadora.
Do campo à xícara: uma leitura sistêmica da qualidade
O diferencial da pesquisa está na sua abordagem integrada. O café deixa de ser analisado apenas como produto final e passa a ser compreendido como resultado de um sistema complexo, que envolve ambiente, manejo e processamento.
O estudo acompanha toda a cadeia produtiva — do levantamento de dados nas propriedades à análise laboratorial dos grãos e à avaliação sensorial da bebida, conduzida por protocolos reconhecidos internacionalmente, como os da Specialty Coffee Association (SCA).
A caracterização inclui compostos químicos determinantes para a qualidade, como cafeína, açúcares, ácidos clorogênicos e compostos voláteis, além da correlação desses dados com variáveis ambientais, como solo, clima e altitude. “O coração do projeto está justamente no cruzamento dos dados de clima, solo, manejo, composição química e avaliação sensorial”, explica Lívia.
Essa abordagem permite não apenas avaliar a qualidade do café, mas compreender os fatores que a determinam — um passo essencial para o desenvolvimento consistente da atividade.
Terroir e identidade: quando o território agrega valor
O conceito de terroir diz respeito à relação entre o ambiente de cultivo e as características do produto. Fatores como solo, clima, altitude e manejo influenciam diretamente o sabor, o aroma e a qualidade do café, podendo resultar em atributos únicos que identificam sua origem.
No caso do DF, a pesquisa busca responder se essas características se manifestam de forma consistente — condição fundamental para que a região seja reconhecida como uma origem.
O estudo acompanha toda a cadeia produtiva — do levantamento de dados nas propriedades à análise laboratorial dos grãos e à avaliação sensorial da bebida, conduzida por protocolos reconhecidos internacionalmente, como os da Specialty Coffee Association (SCA).
A caracterização inclui compostos químicos determinantes para a qualidade, como cafeína, açúcares, ácidos clorogênicos e compostos voláteis, além da correlação desses dados com variáveis ambientais, como solo, clima e altitude.
“O coração do projeto está justamente no cruzamento dos dados de clima, solo, manejo, composição química e avaliação sensorial”, explica Lívia.
Essa abordagem permite não apenas avaliar a qualidade do café, mas compreender os fatores que a determinam — um passo essencial para o desenvolvimento consistente da atividade.
Impacto estratégico: da pesquisa ao mercado
Os desdobramentos do estudo vão além da produção científica. Ao estruturar um diagnóstico da qualidade e das condições de produção, a pesquisa cria bases concretas para o reposicionamento do café do DF no mercado.
A possível consolidação de uma identidade regional pode: 1) agregar valor ao produto; 2) orientar estratégias de certificação; 3) fortalecer a inserção em mercados mais exigentes; 4) ampliar a competitividade da cadeia produtiva
Além disso, o projeto investiga o comportamento do consumidor, analisando quais atributos influenciam a decisão de compra — especialmente em situações em que o café não pode ser previamente degustado. “O que queremos descobrir é quais atributos realmente pesam na decisão de compra quando o consumidor ainda não provou o café”, explica a pesquisadora.
O reconhecimento do café do Distrito Federal como uma origem consolidada ainda depende de fatores estruturais, como escala produtiva, padronização e construção de reputação no mercado. “Para uma origem se firmar, não basta ter alguns lotes excelentes — é preciso consistência, volume e reconhecimento”, afirma a coordenadora.
“O que queremos descobrir é quais atributos realmente pesam na decisão de compra quando o consumidor ainda não provou o café”, explica a pesquisadora.
Ao transformar dados dispersos em evidência científica, o estudo representa um passo decisivo nesse processo. Mais do que confirmar o potencial já identificado, a pesquisa cria as condições para que o Cerrado brasiliense deixe de ser uma promessa e passe a se posicionar como origem — onde ciência, território e produção se encontram para revelar, na xícara, a identidade de um lugar.
*Com informações da FAPDF








