O que define uma manifestação cotidiana como algo digno de proteção histórica? Um projeto desenvolvido na Universidade de Brasília (UnB) investiga essa transição, analisando como tradições se tornam patrimônio cultural ao cruzar as fronteiras entre o Brasil e nações africanas. A iniciativa conta com o suporte financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF).
O processo de patrimonialização
A pesquisa, coordenada pela professora Juliana Braz Dias, antropóloga e docente da UnB, explora a complexa trajetória que transforma uma música, língua ou festa em um bem oficial. O estudo foca no Brasil, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe e África do Sul. Segundo a equipe, o reconhecimento não é apenas um ato burocrático, mas um fenômeno social que envolve comunidades, governos e instituições internacionais.
“O processo de patrimonialização é, acima de tudo, um processo de classificação em que determinados bens culturais têm seu valor reconhecido, enquanto outros lutam ainda por esse reconhecimento”, resume Juliana Dias.
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Conflitos e identidade
O projeto, que recebeu R$ 90 mil via edital Demanda Espontânea, destaca que o título de patrimônio pode gerar tensões. Muitas vezes, a busca por uma “autenticidade” cria disputas entre grupos que desejam o reconhecimento para diferentes vertentes de uma mesma tradição. Um exemplo analisado é a morna, gênero musical de Cabo Verde que recebeu o título da Unesco em 2019.
A pesquisadora aponta que os benefícios econômicos nem sempre atingem as comunidades locais conforme o esperado. “Embora esteja vinculada ao intenso fluxo de turistas, a patrimonialização da morna não chega a fortalecer significativamente a geração de renda”, explica.
A língua como patrimônio
Além da música, a investigação valoriza as línguas maternas, como o crioulo cabo-verdiano e os idiomas de Moçambique, tratando-as como elementos vivos de identidade. A metodologia utiliza etnografia e análise de campo para entender como esses símbolos reforçam o sentimento de grupo.
“Reconhecer e valorizar uma manifestação cultural é um modo de reforçar o sentimento de pertença entre os membros do grupo que criaram e que dão continuidade a esse bem cultural”, afirma Juliana.
Impacto social e educacional
Para além da academia, a expectativa é que os resultados subsidiem políticas públicas de preservação e materiais educativos sobre a história afro-brasileira. A internacionalização do conhecimento é um pilar central, permitindo que estudantes realizem pesquisas de campo no exterior. A cientista reforça que o papel do projeto vai além do registro histórico: “As manifestações culturais não são só um reflexo de outros aspectos do mundo social. Devemos perceber as manifestações culturais como um campo importante de produção de relações, valores, sentimentos e formas de viver”.
O estudo segue em fase de consolidação de resultados, prevendo a publicação de artigos e um seminário final para o compartilhamento das descobertas. Como conclui a professora, “Festas populares, formas artísticas e a própria língua materna criam relações sociais, sentimentos e valores fundamentais para que cada um se sinta parte de uma coletividade da qual se orgulha”.










